A era das custom ROMs já acabou?

A era das custom ROMs já acabou?

A adoção de políticas de atualização mais claras pelas fabricantes de smartphones, com o exemplo recente da Samsung, parece indicar que um dos pilares das custom ROMs — estender o suporte de aparelhos antigos —, talvez não seja mais a preocupação de outros tempos. Será que estamos presenciando o declínio das distribuições personalizadas para smartphones?

Diversas comunidades em torno do sistema Android nasceram e cresceram em torno de discussões técnicas sobre os aparelhos, e um assunto em especial alimentou tópicos, notícias e comentários — as ROMs customizadas. E com o NextPit não foi diferente.

Be-a-bá das custom ROMs

As ROMs personalizadas são versões independentes do Android que podem ser instaladas nos dispositivos. O processo geralmente envolve substituir o boot loader — sistema de inicialização do aparelho — para a instalação do novo sistema operacional. Entre os exemplos mais famosos estão o CyanogenMod ou ainda a própria MIUI, que durante um tempo foi oferecida como alternativa para smartphones de outras marcas.

Nem sempre as fabricantes concordavam com a prática, que viola a garantia de fábrica. Mas durante alguns anos (quando tudo isso aqui era mato) as discussões em torno das ROMs foram muito populares, já que permitiam prolongar a vida útil do smartphone, e às vezes até ofereciam um desempenho melhor do que o sistema original do celular.

Alguns dirão que nunca houve realmente uma era das custom ROMs, que o processo de instalação nunca foi simples o bastante para a maioria dos aparelhos, que a variedade de versões e requisitos impediu a popularização dos sistemas personalizados. E agora, com iniciativas para oferecer atualizações de segurança no Android por mais tempo, com destaque recente para a Samsung, muitos podem afirmar que seu tempo já passou.

Não me entendam mal, não estou dizendo que as custom ROMs morreram. Sempre haverá espaço para soluções personalizadas, prontas para atender aparelhos já abandonados pelas fabricantes e oferecer uma vida extra para aparelhos mais antigos.

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ROMs permitem prolongar a vida útil dos smartphones / © Samsung/Colagem:NextPit

Ascensão e queda da CyanogenMod

Dito isso, houve um momento em que parecia que estávamos prestes a ver as ROMs personalizadas alcançarem o grande público. Até mesmo a programadora Cyanogen — responsável pela famosa distribuição CyanogenMod — chegou a ser contratada pela Samsung.

Pouco tempo depois, em 2013, a empresa Cyanogen Inc. foi fundada para comercializar a distribuição, o que gerou desconfiança entre a comunidade que apoiou (e trabalhou) na ROM durante anos. Mesmo após a injeção de capital por investidores, incluindo a Microsoft, o projeto acabou rompendo compromissos firmados com a OnePlus e, no final de 2016, anunciou o fim da estrutura que compilava e distribuía as ROMs.

Os ideais do projeto seguem vivos na forma de seu sucessor direto, o LineageOS, com uma infraestrutura semelhante de desenvolvimento, acompanhamento das versões AOSP e distribuição de versões de teste Nightly para uma série de dispositivos.

No entanto, o destaque dado a cada novo lançamento e smartphone suportado pela CyanogenMod não parece se repetir com o LineageOS, apesar do sistema ainda oferecer as vantagens de atualização, desempenho e personalização do Android. Até mesmo os frequentes changelogs no blog oficial parecem ser cada vez mais raros, deixando o registro de atividades no código-fonte do projeto como a principal referência das últimas mudanças no desenvolvimento da ROM.

Ainda forte entre marcas de nicho

Milhões de pessoas utilizam aparelhos equipados com ROMs customizadas — mais de três milhões com o LineageOS, segundo a distribuição. Mas a visão de que os sistemas independentes se tornariam mainstream parece ter ficado no passado.

Custom ROMs ainda têm uma importante função em aparelhos de nicho, como o F(x)tec Pro 1X, desenvolvido com a colaboração do site XDA — outra comunidade que cresceu em volta das personalizações do sistema Android.

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LineageOS é o sistema de fábrica do F(x)tec Pro1-X / © F(x)tec

Além disso, o trabalho de documentação das especificações e drivers ajuda aparelhos como o Fairphone 2 a receber atualizações de sistema anos após seu SoC ser abandonado pela fornecedora do componente. O smartphone sustentável lançado em 2015 — com Android 5.1 e Snapdragon 801 — começou a receber nesta semana o Android 9 com suporte oficial da empresa, graças ao esforço da comunidade LineageOS.

Este mesmo empenho permite, por exemplo, que aparelhos equipados com o mesmo chip, caso do OnePlus One, Samsung Galaxy S5, LG G3, Sony Xperia Z3 e Moto X — todos há muito tempo abandonados pelas fabricantes — recebam novas versões não-oficiais do Android.

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Fairphone 2 é do tempo em que o Google ainda prometia o modular “Projeto ARA” / © NextPit

Qual o futuro das custom ROMs?

Mesmo assim, parece que as coisas não mudaram muito desde os tempos em que precisei desbloquear o bootloader do Xperia Play ou do Motorola Defy, conferir se baixei a build apropriada para a versão regional do smartphone, seguir cuidadosamente uma série de passos, para então ligar o aparelho e torcer para não ter errado nenhum dos procedimentos, antes de instalar o pacote GApps.

Para responder minha própria pergunta clickbait: não as custom ROMs não morreram e sua importância continua a mesma de dez anos atrás (já faz tanto tempo assim?). Porém, o sonho de que um dia qualquer usuário poderá instalá-las com poucos passos, a partir da ROM de fábrica — como uma solução mainstream ao curto ciclo de atualizações das empresas — parece tão distante quanto antigamente.

Pelo menos agora temos processos de atualizações melhores, com correções de segurança mais frequentes e recursos independentes das versões do Android. Gostaria até de acreditar que esta mudança tenha sido motivada pela comunidade de voluntários ao redor do mundo que trabalham até hoje para estender o suporte de nossos smartphones.

Mas esta mudança de atitude de algumas fabricantes é relevante apenas para lançamentos ou modelos recentes, que não são exatamente o foco do trabalho dos desenvolvedores das ROMs: fuçar e desenvolver o software nos smartphones antigos. E claro que com o futuro incerto de certas lg marcas, sempre existirão mais aparelhos para atualizar.

E você, acredita que as custom ROMs continuarão como um território exclusivo de nós entusiastas? Ou será que ainda há uma chance de surgir uma nova OnePlus, abraçando uma distribuição Android da comunidade e a levando ao grande público? Deixe sua opinião nos comentários.

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20 Comentários

Escreva um comentário:
Todas as mudanças foram salvas. Não há rascunhos salvos no seu aparelho.
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Todas as mudanças foram salvas. Não há rascunhos salvos no seu aparelho.

  • Um dos primeiros requisitos quando estou pesquisando um smartphone novo é a possibilidade de instalar uma custom rom, atualmente estou plenamente satisfeito com meu Redmi Note 8 com a LineageOS 17.1 (Android 10), depois da instalação da ROM virou outro celular, nunca mais volto para a MIUI.


  • Desde 2018 não sei o que é uma Custom ROM, os novos dispositivos como os Xiaomi e outros chineses praticamente tiraram a necessidade de ficar trocando sistema. Agora para quem usa Sansung, Sony e LG, meus sentimentos


  • Eu particularmente usei ROMS personalizada e nunca deu problemas e que ótima notícia que ainda existe esses projetos que dão vida a mais para aparelhos já deixados de lado pelas suas fabricantes.


  • Confesso que hoje em dia não sei se ainda tenho paciência para fazer instalação de roms. Sem contar o fato que hoje em dia todos nós usamos com mais frequência app bancário/instalamos ou de alguma operadora de cartão, o que bate um certo receio de ficar trocando de rom. Mas foi bacana trocar a rom do redmi 3 pro, do mi 4c e do zuk z2. MIUI nessa época era muito bugada e o sistema do "Zukão" era horrível. Eram bons aparelhos.


  • Essa materia sobre as Custom Rom's terá muito breve um novo capítulo, que mudará os destinos de todos os dispositivos móveis e até dos PC's portáteis com a chegada em breve do Windows X. A Microsoft depois de décadas decidiu mirar todas suas munições para a plataforma Linux. Vai acabar a fase de tranquidade da Google. A entrada da Microsoft mudará tudo no desenvolvimento de Rom's. Finalmente teremos uma luz no fim do túnel com um sistema mais enxuto. Vamos poder usar uma Rom limpa em nossos dispositivos e ficar livre em definitivo dos Bloatware. Parabéns a Microsoft.


  • Uso o Lineage no leeco lemax2 2 na versão Android 10, o aparelho com 6 de ram e snapdragon 820 não podia ser jogado fora depois de ser abandonado no Android 6. Tirando um ou outro detalhe referente a apps que não funcionam , não vejo nenhum problema em rom customizada. Pelo contrário, é um trabalho excepcional.


  • Somente fiz root uma única vez em um Motorola dext, passei da versao do Android 1.5 para a 2.3 , a fluidez do celular melhorou muito , mas concordo da muito trabalho , depois desta fiquei longe do Android por 4 anos , para mim na época foi uma.baita decepção migrar do Symbian para Android ou iOS, para o tetris fone (WM)nem.cogitei , era primário demais .


  • Instalei rom customizada no meu velho Galaxy S2 Lite. Afora a aparência mais moderna (graças à versão mais recente o Android), o uso do aparelho era tão sofrível quanto com a rom original. Culpa, também, dos "parcos" 768MB de memória ram. O desempenho e o uso só melhoraram mesmo quando saiu a rom baseada no Android Lollipop...
    Hoje, mesmo tendo um aparelho que não é atualizado há um tempo considerável, um Zenfone 3, já não sinto estar perdendo nenhuma função essencial por conta de estar com uma versão "ultrapassada" do Android. Até já pensei em voltar às roms customizadas, mas é muito tempo dispendido pra muito pouco benefício...


  • Depois do meu primeiro Xiaomi eu nunca mais me interessei nem por fazer root. MIUI é completa.


  • De fato não tenho mais tanto interesse em Custom ROMs como eu tinha antes, parte disso é porque o suporte oficial melhorou, também por conta das interfaces proprietárias de cada marca amadureceram e agora entregam muita coisa boa sem prejudicar o desempenho dos aparelhos.
    Mas o maior motivo pra mim é a dificuldade de se instalar em alguns aparelhos, por exemplo, tenho usado Xiaomi nos últimos anos e só de ouvir falar em desbloquear bootloader com eles já me dá ódio e tristeza ao mesmo tempo. Minha última experiência com Custom ROM foi com um Nubia Z11 que eu instalei a MIUI 8 nele e pasmem ela funcionava melhor que a NubiaUI nativa do aparelho, tinha OTA e suporte pra temas da MIUI bem como várias melhorias. Só que no Nubia nem precisava de custom recovery pra fazer o processo, era muito fácil fazer tudo.


    • Camila Rinaldi
      • Admin
      • Equipe
      há 2 semanas Link para o comentário

      Concordo plenamente, Soterio! Se o processo fosse mais fluido, muito mais pessoas usariam, eu adicionaria certamente nos meus aparelhos que estão parados aqui em casa. Mas aí entra a questão da comunidade que ainda hoje faz muita coisa no amor, sem receber por isso.

      Fora que smartphone já não é mais algo tão difícil de se ter para muitas pessoas. Antes, um aparelho durava 5 anos, agora o tempo de troca é de basicamente 2 anos.

      O que eu mais sinto falta, no entanto, eram dos recursos criativos que as custom Roms ofereciam. Na realidade, ainda oferecem, mas particularmente deixei de testar faz um tempo...


      • Verdade os recursos extras ainda estão em um nível muito superior nas Custom ROM. Uma pena que aplicativos como instaladores não funcionam sem root pra tornar o processo mais amigável, muitos usuários mais leigos teriam a chance de experimentar e quem sabe dar uma vida nova para os aparelhos.

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Todas as mudanças foram salvas. Não há rascunhos salvos no seu aparelho.